• Pablo Zuazo

Cinderela pós-moderna



Depois de muita embromação, flores de lá, sorriso de cá, cartões e bombons, eis que marcamos de ir a um pub na sexta-feira pretextando um encontro trivial. De encontro trivial tinha apenas o nome, já que não passava do primeiro e decisivo encontro, aquele que separa a ilusão da realidade, o joio do trigo, o otário do deus grego, o menino do homem.

Pode-se dizer também, sem dúvida, que seria um encontro sexual. Ora, dizer que se trata de um encontro definitivo em que se separa a ilusão da realidade, após um mês de declarações mútuas e enrustidas de afeto e interesse carnal, após uma quase-insuperável seca de minha parte, é dizer que, sim, seria também um encontro sexual.

Nas dez horas antes do pretextado encontro, entupi-me de pensamentos e atividades estéticas de mulherzinha frívola e fatal. Dúvidas se fizeram dos creminhos à depilação, da cor das unhas à lingerie, do par de brincos aos anéis, sem contar o fato de perder um terço do dia deixando meu cabelo impecável. Apenas nos cinco minutos antecessores ao encontro perguntei-me se ele estaria tão nervoso quanto eu e se havia se preparado tão quanto a minha pessoa.

Olhava-me no espelho ansiosa pelo zunir da campainha, avaliando se a minha falsa simplicidade de Cinderela pós-moderna estava deslumbrante. Por mais que eu tivesse travado uma guerra de cento e oitenta minutos para ficar mais bonita, ele não poderia desconfiar que uma mulher bela como eu precisasse de tanto tempo "apenas" para sentir-se um pouquinho mais bonita. Eu precisava ficar bonita de modo casual, falsamente casual.

Então me vesti com aquele look minimal-chic, entre o excessivo-brega-perua e o chiquérrimo-passarela. Vesti-me como se vestiria qualquer personagem principal de alguma novela das oito que fosse a um pub numa sexta-feira para um encontro decisivo, e sexual. Usei, é verdade, a artimanha do simpleszinha, porém elegantérrima, que aprendi com uma amiga. A manha é destoar alguma peça, algum detalhe, apenas para quebrar o gelo. Verdade é que em nossos artifícios sociais de causalidade tratávamos o encontro como trivial. E definitivamente trivialidade não combina com elegância parisiense. A campainha tocou de repente, eu estremeci.

Dada a volatilidade a que meu comportamento frívolo-paranóico feminino se submete antes de um encontro amoroso, meu humor mudou da água para o vinho. Tanto é que ao entrar no pub senti-me um fogão quatro bocas velho no meio de uma infinidade tecnológica de micro-ondas com decotes e mini-saias. Claro, contudo, que passadas algumas horas e após certa quantidade de álcool em meu sangue, meu humor retornou do vinho para a água. Não que isso fosse uma solução, uma vez que a presença dele tornou-se totalmente irrelevante: eu falava mais do que minha língua permitia enquanto ele distribuía risos amarelos de pseudo-satisfação.

Num vacilo de meu egocentrismo extravasado, dei palavras ao pretê, que sorrateiramente, assim como um tigre em busca de sua caça, convidou-me para o seu apartamento. Quebrei todas as prescrições politicamente corretas de meu código de comportamento princesa-de-conto-de-fadas que busca ensandecidamente um namorado: aceitei! E mais: dei um sorriso malicioso. Repentinamente, estava eu sentada em sua sala de estar magnífica, ouvindo Norah Jones e tomando um champanhe sec. O moço entendia bem do modus operandi: para uma lady como eu, nada melhor do que um champanhe ligeiramente doce, servido em flûte, dando um perlage fino e de boa qualidade.

O abismo para a fatalidade carnal se desfez quando ele pediu-me um minuto para colocar uma roupa mais confortável: era um modo discreto de anunciar o coito. Afinal, como em todo roteiro de um encontro que se diz trivial e acaba num apartamento, havia um quê de acasalamento animal em sua subjetividade, nascido com a anunciação da troca de vestimentas e confirmado com o meu olhar de permissão maliciosa.

Não precisou de muitos minutos para estarmos lá, eu e ele, como dois animais. Porém, o sexo inicial e decisivo separou a ilusão da realidade. Toda e qualquer suposição masturbatória de minha mentalidade libidinosa e de princesa solteira estava errada: ele era apenas um sapo. Percebi que era um cliente da Pfizer, além de um ejaculador precoce. Fodi-me não só no aspecto sexual. E definitivamente eu não seria a fada encantada de um comedor de boneca inflável. Também não estava disposta a quebrar qualquer bruxaria que rondava aquele ser escroto. Então filosofei enquanto o sapo roncava: sou eu muito exigente ou as outras não têm critério de qualidade?


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